O Eu Inqualificável: Uma ética espiritual contra o racismo
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Para ver o que é mais importante, precisamos aprender a olhar novamente e de forma diferente. O óbvio nunca é a plenitude da verdade. Como J.M. Barrie nos lembra em Finding Neverland, quando o jovem Peter dispensa um companheiro leal dizendo: "É apenas um cachorro", Barrie o interrompe bruscamente: "Apenas um cachorro? Só? Porthos sonha em ser um urso, e você quer acabar com esses sonhos dizendo que ele é apenas um cachorro? Que palavra horrível de apagar velas. É como dizer: 'Ele não pode escalar aquela montanha, ele é apenas um homem', ou 'Isso não é um diamante, é apenas uma pedra'. Apenas."
Essa cena capta algo profundamente humano: a terrível violência oculta na palavra "apenas" - como ela pode reduzir uma alma ao tamanho de um rótulo. Quando usamos a palavra dessa forma, não apenas a descrevemos; nós a confinamos. Extinguimos a possibilidade de uma pessoa, seu mistério, seu devir.
A hortênsia e o solo
Pense em um arbusto de hortênsia. Você provavelmente já viu uma - aqueles cachos de flores que florescem em rosa, azul, roxo ou branco. Mas aqui está a maravilha: todas elas são a mesma planta. A cor da flor muda de acordo com o solo. Se o solo for ácido, as flores ficam azuis. Se for alcalino, elas florescem em rosa. A mesma hortênsia, com flores diferentes.
Agora pense na família humana. Em toda a Terra, florescemos em diferentes tons e formas. O clima, a geografia, o solo e a dieta nos moldaram nessa diversidade espetacular. Essas diferenças externas são o belo florescimento da planta humana. Mas, assim como as hortênsias, o ser humano é uno - diverso na forma, unificado na essência.
Às vezes, as pessoas se esquecem disso e dizem coisas como: "Eles são apenas um..." ou "Isso não passa de um...". Essas palavras tentam transformar uma pessoa em uma categoria. Elas dizem: "Isso é tudo o que você é".
Mas a verdade é que: "Apenas" é uma mentira.
Cada um de nós tem algo em seu interior - o que Rudolf Steiner chamou de "eu" não qualificado - que nunca pode ser totalmente explicado, rotulado ou previsto. Esse "eu" é a parte de nós que escolhe, ama, cria e sofre. É a parte que aprende, perdoa e espera. E todo ser humano tem esse "eu". Não por causa de sua raça, gênero, trabalho ou crenças. Mas pelo fato de ser humano.
O racismo e outros tipos de preconceito acontecem quando nos esquecemos disso. Quando deixamos de ver o ser vivo e falamos apenas da superfície. Quando chamamos alguém de "apenas" um refugiado, ou "somente" um trabalhador, ou "nada além" de uma cor.
Mas a verdade é esta: o verdadeiro trabalho da vida é aprender a ver a alma nos outros.
Vendo o ser humano
Imagine conhecer alguém não como um papel ou um rótulo, mas como um mistério - uma presença, um Tu. Essa é a ética da percepção reverente, de deixar de lado nossas suposições para ver quem realmente está lá. É o que Martin Buber chama de relacionamento Eu-Tu: um encontro espiritual no qual o sujeito não objetifica o outro. Em contraste com isso, há o frio achatamento do "nada-buttery", como Owen Barfield o descreveu - o hábito de reduzir uma pessoa a uma função, tipo ou rótulo. "Nothing-buttery", disse Barfield, "não é ciência. É poesia ruim".
Steiner também adverte contra essa consciência reducionista. Em Intuitive Thinking as a Spiritual Path, ele escreve: "Na medida em que o ser humano pensa, ele é o 'eu' não qualificado". O "eu" não pode ser capturado por descrições superficiais ou classificações sociais. Não é uma construção de ancestralidade ou ideologia, mas o ser espiritual livre que age por intuição moral. Esse é o fundamento do que Steiner chamou de individualismo ético: viver com amor em relação às nossas ações e permitir que os outros vivam com compreensão.
Em outro lugar, Steiner faz a comparação entre uma planta sem brilho e um ser humano dito "sem brilho", lembrando-nos de que, assim como a aparência de uma planta depende de condições invisíveis de solo e luz, a expressão de uma pessoa também pode depender de fatores ocultos de destino, trauma ou privação. Não devemos confundir expressão embotada com ausência de alma. Por trás de toda vida exterior está o mistério completo do eu, esperando para se revelar. Julgar o "homem embotado", sugere Steiner, é interpretar mal o que o olho espiritual ainda não aprendeu a ver.
Essa maneira de ver exige que renunciemos ao estereótipo e à suposição. O termo de Goethe para isso era Anschauung, ou "imaginação sensorial exata", uma forma de atenção amorosa em que se deixa o fenômeno falar por si mesmo. Alex Podolinsky chama essa transformação de "Percepção Ativa", escrevendo: "O que deve ser visto 'fora' só pode ser encontrado quando o olhar subjetivo passivo é despertado para a Percepção Ativa".
O poeta Rainer Maria Rilke capta a coragem espiritual dessa transformação perceptiva quando escreve: "Você deve dar à luz suas imagens. Elas são o futuro esperando para nascer. Não tema a estranheza que você sente. O futuro deve entrar em você muito antes de acontecer". Ver alguém sem categoria, permitir que o futuro entre em nossa percepção dessa pessoa, é em si uma forma de amor.
Essa visão não é uma observação passiva - é um despertar moral. Ele nos pede que olhemos para cada pessoa não como membro de um tipo, mas como um indivíduo que irradia de seu interior. É o início de todo relacionamento real e é assim que o mundo é redimido, um ato de visão reverente de cada vez.
Amor, sacrifício e a morte do tipo
Há uma lei mais profunda em ação aqui, escrita não na cultura, mas no espírito. O cristianismo primitivo ensina que, na Encarnação, algo mudou - não apenas para os cristãos, mas para toda a história humana. São Paulo escreve em sua carta aos Gálatas: "Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem e mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus". E Orígenes reflete sobre essa mesma verdade espiritual: "Cristo veio para reunir todas as nações em uma só e abolir a antiga divisão".
Valentin Tomberg, ecoando essa corrente, escreve em Meditations on the Tarot,"Todos os direitos de sangue, todas as tradições, todos os privilégios de raça e nação são anulados pela cruz". Insistir na identidade herdada como base da personalidade é negar a possibilidade de renascimento espiritual. É ignorar o próprio propósito da encarnação: nos tornarmos mais do que nos foi dado.
Mas como percebemos essa realidade diante de uma cultura que constantemente nos tenta a reduzir os outros? Charles Taylor fala sobre nossa perda da visão espiritual na modernidade. Em Cosmic Connections, ele descreve a necessidade humana de reconexão com o significado - "não apenas qualquer modo de consciência do mundo ao redor, mas um modo repleto de alegria, significado e inspiração".
Para ver dessa forma - para amar dessa forma - é necessário sacrifício. Rilke escreve: "Vivo minha vida em círculos cada vez maiores que se estendem por todo o mundo. Talvez eu não complete este último, mas me entrego a ele". A doação de nós mesmos é a forma como esse amor se torna real.
James Baldwin, de dentro da desordem de um mundo inclinado à classificação, insiste: "Eu não sou seu negro". E em outro lugar ele insiste: "O que você tem de lembrar é que o que você está vendo também é você. Você pode ser essa pessoa. Você pode ser aquele monstro, você pode ser aquele policial. E você tem que decidir, em si mesmo, não ser".
O amor, nesse contexto, não é um mero sentimento - é uma percepção ativa. Não se trata de concordância externa. Não se trata de conforto emocional. Tem a ver com sacrifício. O amor nunca teve a ver com mérito. Como o Evangelho nos lembra, não é uma virtude amar aqueles que nos amam; "até os gentios fazem isso" (Mateus 5:46-47). O amor é comprovado quando amamos nossos inimigos - quando desejamos o bem deles, mesmo que eles não desejem o nosso.
Alex Podolinsky nos lembra que a percepção em si pode ser um ato moral. Em Active Perception (Percepção Ativa ), ele escreve que "o subjetivo e o objetivo se unem... A inteligência humana não é uma faculdade abstrata da mente, mas um despertar consciente de cada órgão humano de observação - incluindo o próprio intelecto".
Ver verdadeiramente é amar.
Amar é recusar-se a reduzir.
Recusar-se a reduzir é tomar sua cruz.
Tomar sua cruz é abrir mão de seu "tipo", de seu medo, de sua superioridade - para que todos nós possamos viver.
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos."
Amar dessa forma é perceber o Outro não como uma categoria, mas como outro eu.
E quando fazemos isso, o mundo começa de novo.
Bibliografia
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Baldwin, James. The Fire Next Time. Nova York: Dial Press, 1963.
Buber, Martin. I and Thou. Traduzido por Ronald Gregor Smith. Nova York: Scribner, 1958.
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Podolinsky, Alex. Active Perception. Austrália: Biodynamic Agricultural Association.
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Taylor, Charles. Cosmic Connections [Conexões Cósmicas]: Poetry in the Age of Disenchantment (Poesia na Era do Desencanto) . Cambridge: Harvard University Press, 2024.
Tomberg, Valentin. Meditations on the Tarot: A Journey into Christian Hermeticism. Traduzido por Robert A. Powell. Nova York: Tarcher/Putnam, 2002.